5 de ago de 2014

Prostituta formada em Letras pela (UFSCar) vai lançar livro que pode virar filme e peça de teatro



Prostituta e escritora Lola Benvenutti, autora do livro ‘O prazer é todo nosso’.Foto: Divulgação / Victor Daguano

 Embora ela não goste de ser comparada com Bruna Surfistinha, é difícil não pensar na prostituta que teve sua história retratada no cinema ao ouvir o relato de Lola Benvenutti, pseudônimo de Gabriela Natalia Silva. A paulista de 22 anos lança, no próximo dia 11, o livro “O prazer é todo nosso” (Editora Mosarte), sobre suas experiências como garota de programa. Ela ainda garante que adaptações da obra para um longa-metragem e uma peça de teatro estão no horizonte, mas se recusa a aceitar que tudo isso faça dela uma sucessora da profissional do sexo vivida por Deborah Secco nas telonas.



São trajetórias diferentes. A Bruna se revoltou contra os pais, saiu de casa e, sem ter como se sustentar, recorreu à prostituição e entrou no mundo das drogas — explica Lola. — Eu não passei por traumas, fiz faculdade, tive opções, mas escolhi me prostituir. Prefiro ser comparada a Gabriela Leite (prostituta morta ano passado, que lutou pela regulamentação da profissão e fundou a grife Daspu e a ONG Davida).

A garota de programa se destacou na mídia por ser formada em Letras. Completou o curso da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mas deixou de lado a carreira de professora para se dedicar à prostituição (ela desconversa quando perguntada se a questão monetária pesou na decisão). Assim como Bruna, Lola mantém um blog no qual defende a regulamentação da prostituição e conta experiências com clientes. São cerca de 30 mil acessos por dia. A moça conta que o objetivo do seu livro é derrubar estereótipos que envolvem as profissionais do sexo, comumente associadas a histórias de violência e preconceito.

— Não vejo as prostitutas como vítimas, sofredoras. Meu livro não tem esse tom dramático. É um convite para as pessoas viverem suas fantasias e dialogarem sobre sexo.

Ela se considera um pouco psicóloga. A capa de “O prazer é todo nosso” tem um divã. Lola conta que gosta de ajudar as pessoas a se libertarem através da sexualidade. Algumas vezes, diz ela, os clientes só querem conversar ou pedem um abraço.

— Claro que meus clientes querem transar, mas não é só isso. As pessoas precisam do toque, querem ser ouvidas e valorizadas. É mais complexo do que o ato sexual — conta, lembrando de um gay que pediu a ela que o “convertesse”. — Expliquei que não existe “cura gay” e que ele seria mais feliz se aceitasse sua orientação sexual. Acabei prestando assessoria (risos). Nós íamos a baladas e eu o ajudava a chegar nos rapazes.

‘NÃO SOFRO POR NÃO TER NAMORADO’

Gabriela Natalia teve sua primeira experiência como prostituta aos 17 anos, mas só passou a fazer programas com frequência no fim da faculdade. A princípio, a paulista preferiu não contar aos pais e colegas de faculdade, por medo das reações. Até que, ainda em sua cidade natal, parou numa lotérica para pagar as contas, e a funcionária que a atendeu disse, sussurrando: “Lola, a gente ama o seu blog”.

— Percebi que todo mundo já estava sabendo e decidi abrir o jogo para os meus pais. Eles passaram quase um ano sem falar comigo — relata a moça, cujo pai é militar da reserva. — Hoje, nos damos bem, mas evito alguns assuntos. Para eles, eu sou a Gabriela, não a Lola.

Na faculdade e no bairro onde morava, ela também enfrentou preconceito. Uma das professoras do curso de Letras chegou a publicar, na internet, um poema em que falava, em tom pejorativo, de uma aluna prostituta. Já no bar que costumava frequentar com os amigos, viu um freguês pedir para o dono proibir sua entrada.

— Vejo o jeito que as pessoas olham para mim. Elas acreditam que prostituta é um ser inferior. Eu tento encarar com peito estufado, mas machuca — desabafa.

Lola também reconhece que manter uma vida amorosa é difícil. Seu último relacionamento sério foi com um cliente por quem se apaixonou. Mas a relação não deu certo.

— Com o tempo, ele ficou nervoso e controlador — diz Lola, que logo emenda, com voz firme: — Mas não sofro por não ter namorado. Quem quiser ficar comigo tem que entender meu trabalho.

Fonte O Globo
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